A criação de bezerras leiteiras representa o futuro da atividade e um dos fatores de sucesso da produção de leite.
Todos os cuidados a serem realizados com os animais recém-nascidos visam a manutenção de um bom status sanitário, possibilitando ao animal expressar um excelente desempenho desde o período inicial da vida.
A não execução de procedimentos essenciais nessa fase impactam diretamente a saúde e o desempenho do animal, prejudicando também sua desmama.
Entretanto, sabe-se que os cuidados com as bezerras recém-nascidas não começam somente após o parto, devendo ser planejados desde o acasalamento da matriz e passando por todo período gestacional.
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Colostragem
O colostro consiste na primeira secreção láctea das fêmeas mamíferas logo após o parto, sendo responsável principalmente por fornecer energia e imunidade passiva devido aos seus elevados teores de gordura (6,7%), proteína (14,0%) e imunoglobulina (6,0%).
Essas funções do colostro são extremamente importantes para o neonato, uma vez que o tipo de placenta dos bovinos (epiteliocorial) não permite a passagem de grandes moléculas para o feto e os bezerros recém-nascidos possuem pouca reserva energética no organismo.
Basicamente, os quatro pilares de uma colostragem adequada envolvem:
- Qualidade imunológica;
- Qualidade sanitária;
- Quantidade;
- Tempo.

Todos os quatro pilares impactam diretamente na eficiência de colostragem das bezerras e no nível de proteção conferido a elas. Casos em que o colostro é ofertado após 6 horas do parto e/ou apresenta baixa concentração de IgG e alta contaminação microbiológica elevam consideravelmente os riscos das doenças perinatais.
O tempo máximo de 6 horas estipulado para realização do processo de colostragem se deve à circunstância de que após este período as vilosidades da mucosa intestinal reduzem a permeabilidade a moléculas grandes como os anticorpos.
Em eventos onde a bezerra não mame o colostro de forma espontânea através da mamadeira deve-se providenciar a colostragem via sonda esofágica de forma a garantir a execução deste procedimento.
A qualidade do colostro ofertado às bezerras é influenciada de modo multifatorial. As influências vão desde o período de ambientação da vaca no pré-parto até o modo como o colostro é ordenhado e armazenado. O perfil de anticorpos colostrais da fêmea gestante é moldado frente aos patógenos do ambiente, as vacinas utilizadas, ao padrão de nutrição, ao status de condição corporal, etc.
Já o perfil sanitário do colostro se estabelece conforme as condições de higiene adotadas durante os processos de ordenha e armazenamento, podendo ser avaliado através dos exames de cultivo microbiológico em laboratório.
A validação da qualidade imunológica do colostro ofertado às bezerras pode ser feita através da análise em colostrômetro ou refratômetro de Brix (óptico ou digital). A tabela abaixo apresenta a classificação dos valores colostrais referentes à sua qualidade imunológica:

As possíveis formas de oferta de colostro para as bezerras envolvem o colostro fresco, colostro refrigerado, colostro congelado e colostro em pó. Vale ressaltar que o principal motivo a se considerar para o armazenamento do colostro nas formas refrigerado e congelado consiste em sua qualidade imunológica.
Uma alternativa interessante para o aproveitamento de colostro de baixa qualidade constitui na sua associação a um colostro de boa qualidade, processo conhecido como enriquecimento de colostro.
A avaliação da eficiência de colostragem é feita através da dosagem das proteínas séricas totais da bezerra, verificando assim a transferência de imunidade passiva.
Uma amostra individual de sangue deve ser coletada 48 horas após a realização da colostragem, sendo armazenada em um tubo sem anticoagulante. Após o processo de coagulação ter ocorrido, instilar uma gota de soro no prisma de um refratômetro de g/dL ou Brix, ambos podendo ser óptico ou digital.
Resultados iguais ou superiores a 6,2 g/dL ou 9,4° Brix indicam que a colostragem foi realizada da forma correta, oferecendo proteção ideal por anticorpos colostrais à bezerra. Em uma análise de rebanho, recomenda-se que no mínimo 90% das bezerras apresentem eficiência na transferência de imunidade passiva, ou seja, valores de proteína sérica total iguais ou superiores a 6,2 g/dL ou 9,4° Brix.
Cura de umbigo
A anatomia umbilical dos bezerros é composta por uma veia, duas artérias e um úraco.
Logo após o nascimento e rompimento dos anexos fetais, a estrutura do umbigo configura uma porta de entrada de infecções para o organismo do animal. Esta é uma das principais razões pelas quais o procedimento de cura de umbigo constitui em um dos primeiros cuidados a serem realizados com as bezerras recém-nascidas.
Ao alcançar o cordão umbilical, agentes patogênicos podem perfazer o caminho das vias de acesso ao organismo (veia, artérias e úraco). De forma geral, a infecção umbilical é denominada de onfalite. No entanto, a nomenclatura da infecção gerada varia conforme a estrutura umbilical acometida. Exemplo:
Obs.: outras nomenclaturas de infecção umbilical são existentes conforme a associação das estruturas acometidas (veia + artéria, veia + úraco, artéria + úraco).
Processos de onfalite tendem a não ficarem restritos somente ao umbigo, ocasionando alterações em outras áreas do organismo das bezerras. Além da possibilidade de acarretar alterações físicas e fisiológicas, estudos demonstram que a ocorrência dos distúrbios gerados pelas infecções umbilicais possuem correlação com redução da produção de leite já na primeira lactação.
É importante ressaltar que quadros de onfalite não diagnosticados e/ou não tratados tendem a se complicar, ocasionando septicemia e levando os animais a óbito. O esquema a seguir demonstra algumas das possíveis alterações que podem ocorrer de acordo com a estrutura umbilical afetada:

O ideal é que a cura de umbigo seja realizada imediatamente após o nascimento da bezerra, podendo ser feita com tintura de iodo de 7 a 10%.
O processo recomendado é o de imergir o cordão umbilical até a sua base na tintura de iodo durante aproximadamente 30 segundos, adotando uma frequência mínima de 2 vezes por dia até o dia em que o umbigo seque e se desprenda do abdômen.
A conservação da tintura de iodo ao abrigo da luz solar e da matéria orgânica é essencial para garantir o seu desempenho, visto que o contato do produto com esses fatores reduz a sua bioeficiência.
É por esses motivos que se indica o armazenamento do iodo em um recipiente âmbar (reduz a passagem de radiação solar) do tipo copo sem retorno (evita o retorno de sujidade do ambiente para a tintura).
A avaliação das estruturas umbilicais quanto a presença ou não de processo infeccioso/inflamatório se dá através de palpação manual para classificação dos umbigos em uma escala de 0 a 2:
- 0 – umbigo normal;
- 1 – onfalite externa;
- 2 – onfalite interna.
Ao analisar a eficiência da cura de umbigo em um rebanho, espera-se que no mínimo 90% das bezerras apresentem escore umbilical 0.
Para obter uma boa eficiência de cura de umbigo torna-se essencial a utilização de um iodo de qualidade, podendo a tintura ser de origem comercial ou produzida na própria fazenda. A seguir segue uma sugestão de fórmula de tintura de iodo para fabricação na fazenda:
Fonte: Departamento de Clínica e Cirurgia de Ruminantes da UFMG
Macerar as 75 gramas de iodo metálico e as 25 gramas de iodeto de potássio, diluindo-as em 50 – 100 ml de água destilada. Acrescentar 900 – 950 ml de álcool absoluto até que a tintura complete 1 litro. Armazenar todo o líquido em um frasco de cor âmbar e ao abrigo da luminosidade. Transferir a tintura de iodo para o copo sem retorno quando necessário.
Mochação
O procedimento de mochação tem como objetivo cauterizar de modo físico (ferro quente ou elétrico) ou químico (pasta cáustica) os cornos do animal, visando eliminar o risco de acidentes e complicações envolvendo tais estruturas.
Recomenda-se que este procedimento seja realizado em animais com idade inferios a 30 dias.
Algumas observações e cuidados devem ser adotadas previamente ao procedimento de mochação:

A anestesia dos cornos pode ser alcançada utilizando-se 5 ml de anestésico local 2% por corno ou 2 mL de anestésico local 5% por corno.
Todo o volume do anestésico deve ser aplicado na fossa localizada acima do globo ocular do animal com o auxílio de seringa e agulha 40×12 estéreis. Os dados apresentados abaixo referem-se aos efeitos de 4 técnicas de mochação sobre o comportamento de bezerras leiteiras:
Fonte: Adaptado de Sutherland et al., 2018
Através destes dados pode-se perceber a importância da utilização do anestésico local durante o procedimento de mochação.
Os animais que receberam aplicação de anestésico não tiveram seu comportamento alterado, fato que gera reflexo positivo no consumo de alimentos e contribui para o desenvolvimento das bezerras.
Vamos em frente!
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